Tiago, eu não tô preparada pra essa volta no passado
Me lembro: 1994
Assisti Parque Dos Dinossauros, queria ser paleontólogo
Apenas um garoto num mundo fantástico
Onde os sonhos não pareciam tão ilusórios
Não havia frequentado tantos velórios
Nem me vendido por salários irrisórios
Meu sorriso ainda era um fato notório
Nossa casa era um santuário
Tudo era mais simples, nem sempre fácil
Mas, pela minha infância, sou grato
Meu avô nos amparou na dificuldade
Com carinho, carrego seu sobrenome, além do cartório
E as memórias de ouvir seus ensaios
Das tias, tios, primas e primos
Os ensinamentos valiosos dos meus pais
A família reunida no almoço de domingo
Que tempo bom que não volta nunca mais
Saudade
De passar a tarde desenhando personagens
Ir à locadora, passear no parque
Até essa cidade parecia tão grande
Um dia, quase morri afogado
Sem força, sem ver a superfície
Foi a primeira vez em que perdi o fôlego
Após a cirurgia da adenoide
Não esqueci a sensação horrível
Que, em 2006, atingiu seu ápice
Em 2016, mais um Órfão De Kos
Chorando sob a Lua De Sangue
E, quando um ente querido morre, a desolação rivaliza com a inveja
E o fascínio por paisagens esconde o desejo de desaparecer em meio a elas
Sufocado como um grão numa panela de pressão
Caminhando por fios de alta tensão, dividido entre a queda e a eletrocussão
Entre quem eu era e o que já não sei mais o que sou
Não me sinto a salvo, tampouco são
Esse álbum também é uma forma de terapia, pois quase perdi tudo na pandemia
Sobrevivendo com Auxílio Emergencial, sem perspectiva
Nem idas ao mercado
As refeições do dia eram as do Bom Prato por R$1, 00
Água escorria do teto
Enquanto eu desabava em crises de ansiedade
Sentindo na pele o que é distanciamento social
Fases da vida, fases da Lua
Frações perdidas em faz-de-conta
Se são só fases, então que passem
Se são só frases, então que cessem
Fases da vida, fases da Lua
Feito partidas em partituras
Se são só fases, então que passem
Se são só frases, ainda bem