Olho retratos presos na parede do tempo
Nomes gravados em ruas do pensamento
O primeiro amigo que um dia encontrei
Ainda caminha comigo ou também se perdeu?
As mãos que apertaram as minhas na infância
Viraram lembranças sem data e distância
E eu me pergunto, em silêncio outra vez
Tudo o que vivi teve algum valor, talvez?
Quantas cadeiras ficaram vazias à mesa
Quantos sorrisos dormem na natureza
Há vozes antigas no fundo de mim
Chamando meu nome de um lugar sem fim
As folhas caídas de um velho jardim
São rostos amados dizendo adeus para mim
E cada saudade é um mar a crescer
Tentando afogar o que resta de ser
Vale a pena levantar?
Vale a pena respirar?
Abrir os olhos outra vez
Se tanta coisa ficou para trás?
Vale a pena seguir?
Mesmo sem compreender?
Carrego os nomes que perdi
Para não deixar morrer
O vento toca meu rosto cansado
Como uma carta de quem foi levado
E a chuva insiste em me fazer lembrar
Dos que partiram sem se despedir do lugar
Tento abrir os olhos contra a tempestade
Buscando sentido na imensidão da saudade
Cada novo amanhecer parece perguntar
Ainda existe razão para continuar?
Vejo minha vida como um rio distante
Pedras e pontes seguindo adiante
Alguns ficaram, outros deixaram a mão
Virando estrelas no meu coração
Se o tempo é um livro que não posso fechar
Por que ainda insisto em suas páginas olhar?
Talvez porque amar seja também carregar
As ausências que nunca vão terminar
Vale a pena acordar?
Vale a pena insistir?
Se quem eu amo não está aqui
Ainda devo prosseguir?
Vale a pena viver?
Mesmo sem entender?
Talvez a resposta esteja em lembrar
De quem me ensinou a permanecer
E se cada lágrima for uma estrada
Ligando o ontem à manhã inesperada?
Se cada nome guardado em meu peito
For a prova de que nada foi desfeito?
Então eu me levanto, mesmo sem saber
Se existe sentido em mais um amanhecer
Porque sentir saudade também é guardar
Uma parte de quem nunca vai voltar