Numa manhã de silêncio e Sol cansado
Um olhar encontrou um pequeno portal
Uma prisão de seda tremia devagar
Guardando um segredo prestes a despertar
Ali dentro, um coração insistia
Empurrando o mundo com forças tão pequenas
Cada movimento era um rio contra pedras
Cada segundo, uma guerra silenciosa
Mas a espera pareceu sofrimento demais
E mãos cheias de bondade quiseram mudar o final
Uma lâmina cortou a vida ao meio
E abriu a porta antes da hora chegar
Saiu então a criatura tão sonhada
Com o corpo curvado e as asas sem verão
Como folhas molhadas após a nevasca
Sem força bastante para tocar o céu
E o tempo passou diante daqueles olhos
Esperando o milagre acontecer
Mas algumas sementes não florescem cedo
E alguns atalhos ensinam a perder
Porque o peso do casulo era o mestre invisível
Era o fogo que moldava o metal
Era a corrente levando vida às asas
Preparando o instante de deixar o chão
Quantas vezes pedimos caminhos sem pedras
E amaldiçoamos a noite e a dor
Sem perceber que os ventos mais severos
Ensinam as árvores a criar raízes de amor
Pedimos força E vieram tempestades
Pedimos respostas E vieram questões
Pedimos abrigo E vieram pessoas feridas
Para aprendermos a curar nossos próprios corações
Toda vida nasce entre lágrimas e esforço
Todo amanhecer rompe alguma escuridão
Até os rios precisam cortar montanhas
Para descobrirem a imensidão
Protegemos demais quem amamos
Construindo jardins sem inverno e sem chão
Mas flores que nunca enfrentam o vento
Quebram-se ao primeiro trovão
Há gaiolas feitas de medo e conforto
Brilhando como ouro ao redor da prisão
Mas nenhuma corrente se torna liberdade
Só porque recebeu outra decoração
E chega o tempo de escolher o caminho
De dar sentido ao próprio caminhar
Pois ninguém pode emprestar suas asas
A quem nasceu para aprender a voar
Nem todo obstáculo deseja nossa queda
Nem toda ajuda sabe realmente salvar
Às vezes o inimigo é quem tira a batalha
E o amigo é quem nos ensina a lutar
Então abrace as noites e os dias difíceis
As marcas que o tempo deixou em você
Porque antes do voo existe o casulo
E antes das alturas Existe o sofrer
As asas mais fortes não nascem prontas
São escritas lentamente pela dor
E quem atravessa o estreito da vida
Descobre no esforço o verdadeiro valor
Pois o céu pertence aos que suportam o processo
Aos que caem, aprendem e tentam outra vez
Porque ninguém recebe aquilo que deseja
Mas a vida sempre entrega aquilo de que se fez